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| 20anos |
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| Perdemos um Pai, ganhamos um anjinho |
Quatro anos antes de o meu pai morrer, descobriu que estava com problemas de saúde sérios no fígado. Foi uma notícia preocupante, mas pensávamos nós que com um tratamento adequado e cuidados o problema ficava resolvido. Não sei bem o que o meu pai pensou nesse momento, pois ele sempre transmitiu uma força muito grande. O que é certo é que continuou a fazer a sua vida normal, ía trabalhando para sustentar a família, nós estávamos bem em termos familiares, tudo a correr bem. Passado um pouco mais de três anos do meu pai descobrir que estava doente, começou a sentir o seu corpo diferente, um grande cansaço, o corpo sentia-se fraco, com isso foi ao médico e reformou-se por invalidez. Estava reformado, quando finalmente conseguiu a casa porque sempre lutou. A casa estava em muito mau estado, mas o meu pai não foi abaixo e desde logo quis começar as obras sozinho. Tratou de tudo a seu gosto... Todos os dias lá ia ele para a casa fazer mais um bocadinho. Ainda me lembro tão bem de ir lá levar-lhe o lanche e ele dizer sentado no banco a lanchar “olha filha gostas daquilo? Achas que está bem? Olha como está a ficar aquilo.” E assim foi durante 8 meses. Passado esses meses, mês de Setembro, mudaram-se para lá. No mês de Novembro o meu pai foi internado no hospital de Penafiel, para fazer um tratamento. Jamais pensei alguma coisa de pior daquele tratamento. Fui lá vê-lo com os meus manos e mãe e ele sempre a sorrir, parecia-me bem. Teve internado cerca de 3 dias e depois veio embora. Passado uns dias foi chamado ao hospital de S.joão para ir a uma consulta como já tinha acontecido uns dias antes e o meu pai não se tinha sentido nada bem com o que lhe injectaram nesse dia. Então contou à médica o que tinha acontecido da outra vez e se aquilo era mesmo necessário. A médica disse que tinha mesmo de ser e o meu pai tornou a sentir-se mal com esse tratamento. Veio embora, uns dias passaram, passou o Natal, o ano novo e a meio de Janeiro o meu pai começou a inchar. Começou nos pés mas o meu pai achou que aquilo era passageiro e não foi ao médico. Passado dois dias começou a inchar a barriga. A minha mãe achou aquilo estranho, ligou para a linha 24 onde lhe disseram para ir imediatamente com o meu pai ás urgências porque aquilo era muito grave. Foram ás urgências, quando lhes foi dito que o meu pai tinha menos de um mês de vida, porque tinha três tumores no fígado e um deles tinha arrebentado. Agora imaginem a dor de alguém, o choque de saber que tinha menos de um mês de vida e que apesar de saber que tinha problemas sérios, não sabia que tinha tumores. Veio para casa com a minha mãe e teve uma conversa com o meu avô, passado uns dias com a minha a avó e passado mais uns dias comigo. Toda a família ficou a saber, todos os seus amigos e o meu pai passava os dias dele em casa no sofá ou na cama, a receber visitas de despedida. Ninguém pode dizer que o meu pai alguma vez foi abaixo, porque todos esses dias íam visitá-lo e ele sempre sorriu, dizendo que “a vida é assim, que tinha de se andar para a frente”, continuou sempre o mesmo brincalhão com as suas piadas, acreditem o meu pai é o orgulho de toda a gente. A conversa de despedida que tivemos só os dois, foi muito dura, ao ouvir as palavras dele, o que ele me pediu, o sorriso que me deu, foi a pior conversa da minha vida, o meu pai estava a dizer-me que ía morrer. Eu chorei logo sufocada. Eu não queria mas só quem passa é que sabe que é difícil não desesperar. Levantei-me, abracei o meu pai e disse “gosto muito de ti, um dia vamos encontrar-nos todos”. Naquele momento as lágrimas vieram aos olhos do meu pai e ele dizia “oh filhota a vida é mesmo assim”. Depois desse momento eu estive sempre do lado do meu pai. Os dias passaram e a barriga do meu pai cada vez inchava mais. Chegou a ir ao hospital de Penafiel pedir para tirar um bocado de líquido da barriga para aliviar pois mal conseguia comer, onde uma mulher que parece ter o curso de médica, só assim é que a posso tratar, fez o favor de gritar na sala de espera do hospital, que não tirava liquido nenhum, porque o meu pai tinha no máximo 15 dias de vida. Todos ficamos revoltados contra ela e o meu pai mais uma vez com o bom coração que tinha, não quis que se fizesse queixa contra ela. Embora no dia seguinte um dos directores do hospital ligou a pedir desculpa. O meu pai continuou em casa e numa quinta-feira estava eu na sala, com os meus irmãos e começou a dar a música “Lisboa menina e moça” e nós começamos a cantar. O meu pai estava sem forças sequer para abrir os olhos e derrepente começou a cantar a música connosco, foi um momento especial, mesmo naquela situação. No dia seguinte sentiu-se mal e a minha mãe chamou a ambulância. Estava eu a chegar a casa das aulas, quando vejo a ambulância a sair, fiquei com tanto medo. A minha mãe chegou a casa e disse que o meu pai tinha ficado no hospital muito mal. Vim para o quarto com os meus irmãos, falamos e ambos sabíamos que as coisas não estavam bem mas sempre a falar com esperança. No dia seguinte, sábado dia 7 de Fevereiro de 2009, parte da tarde eu e a minha mãe fomos ao hospital ver o meu pai. Quando chegamos ao hospital, vimos o meu pai numa cama com as cortinas quase todas tapadas e com a mascara de oxigénio. O meu pai não conseguia abrir os olhos nem falar, nós só conseguimos perceber que ele estava vivo porque mexeu os olhos. Depois a minha mãe disse-lhe “Luís está aqui a tua filha” e abriu-lhe os olhos e eu sorri para ele. O quarto estava frio e o meu pai ainda mais. Eu sei que aquilo já era de estar a chegar a hora, mas uma pessoa tem de ter uma boa qualidade de vida até ao fim. Eu e a minha mãe vestimos-lhe umas meias e pedimos mais um cobertor. Passamos ali a tarde as duas sentadas no sofá a chorar e eu sempre de mão dada com ele. Depois a minha mãe desceu para um tio meu subir e eu fiquei lá. O meu tio também percebeu logo que ali ía ser o fim. Quando o meu tio disse “eu já vou”, o meu pai mexeu-se porque não queria que fossemos. Eu também ía mas disse” eu não vou pai, vou ficar aqui contigo” e ainda ficamos lá mais um bocado. O meu pai durante a tarde foi-me apertando a mão. Pouco antes de ir embora ele estava de mão dada comigo e derrepente deixou cair a mão, por isso eu acho que foi aí que o meu pai morreu. Viemos embora e quando cheguei a casa fui logo ver o álbum de fotografias e pedir a Deus para salvar o meu pai, limpei as lágrimas e fui jantar. Mal me sentei na mesa a minha mãe entrou a chorar, agarrou-se á minha avó e disse “o meu marido morreu”. A minha avó começou logo a chorar e eu agarrei-me ao meu irmão a chorar, quando ele foi muito mais forte do que eu e disse “calma Sílvia nós já sabíamos”. De repente a minha casa encheu de gente a dar-nos força, a chorar, a tristeza era tanta. À noite os meus irmãos perguntaram-me se no funeral podiam dar beijinho ao pai e eu disse “claro que sim”. Mas afinal não puderam, porque o hospital só deixou abrir uns segundos para vermos o corpo e não podíamos tocar, pois disseram que a doença era contagiosa depois de morto. Ver o meu pai, aquele grande Homem de tanta força, tão amigo, tão brincalhão, que não se metia com ninguém estava ali e nunca mais vou poder ver o seu sorriso, ouvir as suas piadas e muito menos dizer “Pai eu amo-te, obrigado por tudo”. E tudo aconteceu assim e eu só sei que é uma dor muito grande não só por eu ter perdido o meu pai, mas sim por ele, porque ele amava a vida e jamais merecia isto. Vou terminar este texto, porque já contei como tudo aconteceu, mas também porque já não consigo escrever mais hoje, as lágrimas não param de me cair e preciso de sonhar contigo…Boa noite Pai!
04-02-2011/23h:30m


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